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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Memórias e divagações


“Memórias e Divagações” de João de Deus Rodrigues
prefácio de A.M. Pires Cabral
ilustrações de Luís Manuel Pereira


O meu gato e o meu cão

Lá em casa todos tínhamos nome,
Excepto o gato.
Esse era o gato, ou, quanto muito, o miau.
E como bom felino que era,
Não tinha cara de mau, não,
Embora se julgasse o patrão...

A ronronar, junto da lareira,
Se alguém o pisava,
Virava as unhas e arranhava...
Ou então,
Se eu lhe mostrava o sapato,
E lhe dizia: sape gato, seu mandrião,
Ele corria para a gateira,
E ia para o palheiro,
A murar ratos, o dia inteiro.

Mas, valha a verdade,
Despesa também não dava.
Comer, só os ratos que caçava...
E ir ao veterinário?
Bom, como assim,
Se não havia médico para mim!...

Já o meu cão, esse era outra loiça!
Era um perdigueiro, de dois narizes,
E íamos os dois à caça das perdizes...
E se por descuido eu o pisava,
Ele queixava-se com a dor,
E triste olhava para mim, e assim ficava...

Até que eu, com carinho e amor,
Lhe fazia uma festa na cabeça,
E ele abanava o rabo de contente,
Ainda por cima,
E continuava a nossa estima...

Fomos, muitas vezes, cúmplices,
Quando íamos no encalço das perdizes.
Ele, com o vento nos narizes,
Sabia melhor do que eu onde elas estavam...
E disso, dava-me sinal:
Cabeça prá frente, bem esticada,
Pata no ar, levantada,
Nem tossia nem mugia,
Ficava tal e qual,
Até que eu lhe dizia:
Vai lá, Nero...
Então ele dava a esticada,
A perdiz levantava,
E, algumas vezes, caía...

E quando a perdiz caía,
Como ma entregava contente!
Então eu recebia-a,
Cuspia-lhe no nariz,
Fazia-lhe festas na cabeça,
E ele abanava o rabo, e agradecia...

Finou-se com a idade, o meu Nero.
E no dia que ele morreu,
Primeiro chorou ele, e depois chorei eu.

Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real... | Traga-Mundos – lhibros i binos, cousas i lhoisas de l Douro an Bila Rial...
[disponível também do autor: “Passagens e Afectos” , “Histórias Maravilhosas da Terra Quente”, “Outras Histórias de Gente d’Além Marão” e “”A Terra de Duas Línguas – II – Antologia de Autores Transmontanos”]

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Passagens e afectos



“Passagens e Afectos” de João de Deus Rodrigues

O título “passagens e afectos” sugere o fluir temporal, e até espacial, ligado pela coordenativa copulativa “e” aos afectos, o que, numa leitura global, depreende que “as passagens” suscitam novos sentimentos. Disso mesmo dá conta o sujeito poético, pois, desde o acto da sua concepção: “que fui em campo aberto” (pág. 25), marcando o seu nascimento: “E tudo aflito,/ À espera do meu primeiro grito” (pág. 27), tudo ficou registado no tempo até ao final da obra, reaparecendo sob a forma de um “eu” maduro, agarrado às memórias.

Este livro fornece-nos o percurso de um homem escondido por do detrás sujeito poético e não seriam necessárias as notas complementares para o leitor captar o sofrimento e a dor vividas em primeira pessoa, pois a poesia, embora depure sentimentos, é também o palco privilegiado para os plasmar. No poema “Um outro Adeus ao Mar” a interrogação final dos versos: “Te pedi em oração/ Que levasses meu ofertório/ Ao concílio dos deuses,/ Para que protegessem os filhos meus?” revela já abandono do sujeito por parte do Mar, esse mesmo “eu” que o escolhera para confidente e agora, desiludido, reitera: “Toma então/ o pesar verdadeiro, / De quem te quis dar/ Um filho marinheiro,/ Antes da morte o levar.” (pág. 53). Certamente que este filho é o símbolo de tantos outros anónimos que partiram, como, aliás, Fernando Pessoa evocou: “Quantas noivas ficaram por casar/ Para que fosses nosso, ó mar!”. Mas a verdade é que a Dedicatória contempla, em primeiro lugar, a “memória do meu filho”. São estas e, certamente, outras passagens que geram novos afectos que estão concentrados neste título, pois a construção da obra assinala várias etapas, espécie de capítulos muito abrangentes, em que o humano, a natureza e o divino se fundem, como podemos observar no poema “Ausência” onde a ave surge como mensageira da felicidade na terra: “Porque as aves são criaturas místicas, / Com asas celestiais, que Deus criou,/ Para alegrarem a Terra e o Céu” (pág. 68).


Estes poemas são simples, mas portadores de uma enorme sensibilidade e de um amor intrínseco à memória dos lugares e das coisas. O Douro serpenteado suspenso: “Era ali o meu Douro” (pág. 109); o Mar com os seus mistérios: “O Mar!/ - O que é o Mar, avô?” (pág. 45); as conversas com os avós, papel hoje já assumido pelos ex-filhos: “Que haja em casa uma avó querida, / Capaz de criar os três!” (pág.116); a Terra estreitamente ligada à função materna: “Por isso é a ti, Mãe-Terra / Berço da terrena criação/ Que faço solene pedido.” (pág.91); a Água como fonte essencial da vida: “E sem água/ O sangue da Terra/ Não existirá vida.” (pág. 93), e associada à chuva: “Chuva, filha predilecta do Mar.” (pág. 95), ao granizo: “O granizo era como balas/ De guerreiros de pedra.” (pág. 96), e à neve: “que coisa tão bela,/ Era a neve a dançar” (pág. 97).

Os elementos da Natureza citados formam campos lexicais muito mais vastos que adornam a poesia, enquanto protagonistas dos cenários envolventes: assim, junto ao mar, temos as ondas, as sereias, os marinheiros e as praias; na terra, ou nas serranias, encontramos uma vegetação rica com flores campestres e silvestres que, por vezes, acolhem os grilos e as formigas e atraem outros insectos alados, tais como as abelhas, as borboletas e as mariposas. E destes versos sobressai ainda o belo cromático dos amores-perfeitos ou do jasmim que se associam a uma enorme colecção de aves: o melro, o pardal, o pintassilgo, o tentilhão, a carriça, a rola. O mesmo olhar analítico e perspicaz de coleccionador devotado a escolher os melhores versos para a sua colectânea: versos, produto de experiência e de sabedoria calcinada pelos tempos e pelos espaços mundividenciais que cercaram o sujeito de enunciação; versos de amor e de gritos... versos que transformaram um homem de armas em poeta. Porque, apesar do “se” presente nos versos: “Ah se eu fosse poeta, / Minha mãe” (pág. 29), o sujeito revela-se sem hesitações e afirma-se como um grande poeta; talvez tenha sido a vida que o prendeu à magia das palavras e, por elas, tenha conquistado o sentido do belo e o êxtase contemplativo do universo, segredos muito bem guardados, mas também desvendados por Sophia de Mello.

Este livro, na sua simplicidade, reúne reminiscências de poetas de todos tempos: desde Antero de Quental, Augusto Gil, Cesário Verde até Sophia de Mello e, como não poderia deixar esquecido, seu conterrâneo Torga. De uns, o poeta colheu o colorido, de outros, o jeito de fazer versos, de outros, a inspiração, e de Torga a veia telúrica que fez de Trás-os-Montes uma terra singular.

A relação existente entre o “eu” e o “tu”, por vezes personificado, bem como o tom confessional e o discurso dialógico impregnam a poesia de ritmos e toadas disfóricas, de acordo com a intencionalidade comunicativa subjacente.

São poemas feitos das memórias que acompanharam o crescimento do ser e souberam esperar pela hora de nascer, através da palavra - o arco-íris, a presença dos avós, as paisagens, os lugares -, são imagens presentificadas a preencher o caminho percorrido e a assinalar o que ficou por aprender: “E interrogo o espaço percorrido, / Mas ele não me sabe responder./ Porque no tempo fui consumido, / E com tanta coisa por aprender!” (pág. 108).

Esta partilha de memórias com o leitor é, sem dúvida, um gesto de amor e de coragem que João Rodrigues decidiu assumir... e cada um saberá receber, consoante a sua entrega. Afinal, todos estamos expostos às passagens e aos afectos!
Júlia Serra (Professora e crítica literária), in “Jornal dos Poetas e Trovadores”, n.º 50, Outubro/Dezembro 2009, 3.ª Serie, Ano XXIX.

Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real... | Traga-Mundos – lhibros i binos, cousas i lhoisas de l Douro an Bila Rial...
[disponível também do autor: “Histórias Maravilhosas da Terra Quente”, “Outras Histórias de Gente d’Além Marão” e “”A Terra de Duas Línguas – II – Antologia de Autores Transmontanos”]

terça-feira, 30 de julho de 2013

Histórias de gente d'além Marão


“Outras Histórias de Gente d’Além Marão” de João de Deus Rodrigues

“Caro amigo, caro escritor, fico-lhe muito grato por me oferecer o seu novo livro. Este seu livro é, como os outros, de grande qualidade literária e humana e será por isso com todo o gosto que o mostrarei a alunos, colegas e amigos; e será também merecidamente que o referirei, mais cedo ou mais tarde, nos meus trabalhos. As gerações mais novas (e não só) precisam de ver exemplos como o seu, precisam de saber que a escrita e a memória são fundamentais numa sociedade que se quer mais justa e evoluída.” Excerto de uma carta do Professor Doutor Carlos Nogueira (IELT, FCSH, Universidade Nova de Lisboa)

“... Foi um prazer e uma honra ler as suas “Histórias”. Aprendi e fiquei a conhecer melhor Trás-os-Montes e as suas gentes. Tocou-me a sua singeleza, a sua honestidade... Ficcionadas, é certo, mas sempre apoiadas por uma matriz genuína, com personagens autênticas, todas com um “fundo” bom, homens e mulheres com valores morais, éticos e religiosos... O nosso país precisa de contadores de histórias assim...” Adelaide Trindade – Professora de Literatura


João de Deus Rodrigues nasceu na aldeia de Morais, concelho de Macedo de Cavaleiros, no ano de 1940. É casado e pai de dois filhos. Em 1961 foi para Lisboa, como militar, tendo depois ingressado no Ministério da Economia. Em 1970 é colocado no Ministério do Exército - Fábrica Militar de Braço de Prata - e mais tarde ficou a pertencer ao Ministério da Defesa Nacional, de onde é aposentado. Fez o Curso Complementar dos Liceus e frequentou cursos profissionais na IBM Portuguesa, e um curso de Desenho e Pintura. Fez exposições individuais de pintura e participou noutras colectivas, nacionais e internacionais, tendo sempre como tema dos seus trabalhos a ruralidade. Trabalhou, ainda, doze anos na actividade seguradora. Presentemente frequenta, em Lisboa, a UITI - Universidade Internacional para a Terceira Idade.
Para além da escrita, colabora em publicações regionais. Foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Poesia 2011 Fernão de Magalhães Gonçalves, e tem contos e poemas publicados em antologias. É sócio da Academia de Letras de Trás-os-Montes, da Sociedade Portuguesa de Autores e da Associação Portuguesa de Poetas.

Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real... | Traga-Mundos – lhibros i binos, cousas i lhoisas de l Douro an Bila Rial...
[disponível também do autor: “Histórias Maravilhosas da Terra Quente”, “Passagens e Afectos” e “”A Terra de Duas Línguas – II – Antologia de Autores Transmontanos”]