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terça-feira, 26 de agosto de 2014

Caramulo e os tísicos

“Caramulo – Crónica Romanceada” de A. Passos Coelho

Este livro só podia ter sido escrito por um tísico da velha-guarda ou por um médico tisiologista da mesma época. Infelizmente no primeiro caso, felizmente no segundo, o autor satisfaz as duas condições. O ex-tísico oferece-o a seus irmãos que, durante tantos anos, com abnegação e sacrifício se responsabilizaram pelas despesas do doente. O tisiologista dedica-o humildemente à memória dos colegas cuja vida se processou entre os tísicos e para os tísicos. E a estes envia-lhes para a eternidade a comovida lembrança da vivência comum de alegrias, frustrações, sofrimentos e despedidas.


«Trata-se da reedição da obra que aborda a vida e os sentimentos dos doentes que ocuparam aquela que outrora foi a maior estância de tratamento de doenças pulmonares do país. (...)
A estância sanatorial do Caramulo foi criada nos anos 20, pelo Dr. Jerónimo de Lacerda, para combater um dos maiores flagelos da sociedade europeia de então, a tuberculose, uma doença infeciosa também conhecida como “tísica pulmonar”, ”peste cinzenta” ou “doença do peito”. Esta foi uma das mais importantes estâncias da Europa, chegando a receber, por ano, perto de 2000 doentes, dando emprego, direta ou indiretamente, a grande parte dos habitantes da região.
Conhecido sobretudo como médico pneumotisiologista, o Dr. Passos Coelho dedicou também tempo à actividade política e à escrita. No plano político, exerceu funções de Presidente da Assembleia Municipal de Vila Real. No plano literário, além de colaboração episódica e dispersa em algumas revistas, conferências e comunicações, publicou dois livros de contos, um livro de poesia e um romance.
Os livros de contos, “Gente da Minha Terra” e “Histórias Selvagens”, saíram em primeira edição em 1960 e 1963, respectivamente. O livro de poesia, intitulado “Material Humano”, saiu em 1997. O romance “Caramulo”, teve a sua primeira edição em 2006. [UTAD]

«O Caramulo é um nome por demais conhecido como local de internamento de doenças pulmonares, no caso, a tuberculose que, há décadas “foi uma desgraça muito grande no século XX”. Pela qualidade dos tratamentos aí efectuados, o Caramulo ganhou fama e prestígio, uma e outro extensivos aos médicos que aí trabalhavam.
Aí funcionavam vários serviços de especialidade: radiologia, pneumologia, cirurgia pulmonar e outras. Era no Caramulo que muitos médico estagiavam, indo do Porto, de Lisboa e de Coimbra. Era no Caramulo que estavam os melhores médicos nesta área. Era, pois, «pena» que todo o historial médico e humano caísse no esquecimento. E isso o dr. Passo Coelho nunca quis que acontecesse, porque ele, que foi para o Caramulo para ser tratado, a ele está “ligado pela vida biológica, profissional e familiar”.» [Notícias de Vila Real]

Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real... | Traga-Mundos – lhibros i binos, cousas i lhoisas de l Douro an Bila Rial...
[também do autor os títulos: “Gente da Minha Terra” (contos), “Histórias Selvagens” (contos), “Zélia” (romance), “Mais Gente da minha Terra” (contos), “Memórias de Céu e Inferno”]


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Memórias em A. Passos Coelho

“Memórias de Céu e Inferno” de A. Passos Coelho

O inferno é uma invenção pré-histórica de certo fanatismo religioso, destinado ao suplício de almas malvadas. O paraíso fora concebido para premiar eternamente as almas boas; localiza-se no céu, em sítio incerto. Não obstante os avanços tecnológicos no domínio da astronáutica, ainda se não vislumbrou o preciso lugar desse almejado destino das almas sãs, cujos corpos se finaram. Do inferno nunca nenhum sábio ousou definir a topografia, e não existe notícia de que alguém se tenha interessado em descobrir-lhe o paradeiro. Por mim, creio que o inferno é nesta vida e não está equipado com caldeirões efervescentes, terríficos braseiros, sofisticados aparelhos flageladores. Cada pessoa pode ter o seu inferno. O meu foi a fome, o frio, a miséria que vivi até aos oito anos num casebre imundo de Peneda…. Completamente alheio à tragédia que assolava a Europa, com a avalanche militar nazi subjugando a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo e parte da França, posto que detida pelos soviéticos em Stalinegrado, e repercutindo-se gravemente no nosso país em dificuldades económicas que nos impunham graves restrições alimentares, eu era feliz em Chaves. Vivia feliz na simpática, bonita, acolhedora, farta cidade fronteiriça flaviense. Vivia no céu!


«O livro de A. Passos Coelho Memórias de Céu e Inferno é um verdadeiro retrato social do Portugal dos anos 40 do século XX. Repleto de descrições fortes e recorrendo a um estilo literário único, o autor descreve de forma ímpar os afetos e os dramas de uma época extraordinariamente difícil.» [Douro Hoje]

«Primeiramente devemos salientar que o texto que se segue não pretende ser uma recensão crítica da obra em epígrafe, por não sermos detentores de competências para tanto, mas apenas uma opinião resultante de uma leitura atenta e interessada do livro em apreciação.
 Na linha de tantos médicos que optaram por ser simultaneamente escritores, de que, entre nós, temos como exemplos Júlio Diniz, Miguel Torga e Fernando Namora, A. Passos Coelho, com uma notável carreira de Pneumologista no campo da Medicina, dá-nos, em “Memórias de Céu e Inferno”, uma obra de grande interesse narrativo, que seguimos com progressivo interesse, à medida que as páginas se vão sucedendo, prendendo-nos na teia bem urdida que por vezes nos arrebata, forçando-nos a resistir à tentação de caminhar para a última página e descobrir se o final é feliz (ou nem por isso..).


Ao longo do livro, tentamos descobrir a razão do título; primeiramente fazemos a ligação com a vida atribulada do protagonista, cujo nascimento coincidiu com a morte da mãe, ficando entregue a uma tia que, pobre, cheia de filhos para alimentar e de problemas tremendos para resolver, numa vida arrastada e muito sofrida, honrou o compromisso assumido perante a irmã, no leito de morte, de o tratar como se seu filho fosse.
A tia, a primeira guardiã, a quem se seguiriam duas outras, que a morte acabaria por levar, deixando o jovem por duas vezes à beira do Inferno, quando do seu passamento, servindo de lenitivo os tempos passados no Céu, assim pelo autor considerado como os períodos de proteção da extremosa mãe que D. Guida fora e, sobretudo, de D. Céu, que, de omnipresente mãe adotiva, passou sucessivamente a amante suprema e, a seu tempo, a sua primeira e bem amada Esposa.
É aliás deveras interessante a definição que o autor nos dá de inferno: “uma invenção pré-histórica, de certo fanatismo religioso, destinado ao suplício de almas malvadas. O paraíso fora concebido para premiar eternamente as almas boas; localiza-se no céu, em sítio incerto…Do inferno nunca nenhum sábio ousou definir a topografia, e não existe notícia de que alguém se tenha interessado em descobrir-lhe o paradeiro. Por mim, creio que o inferno é nesta vida…cada pessoa pode ter o seu inferno. O meu foi a fome, o frio, a miséria que vivi até aos oito anos num casebre imundo de Peneda…”.
Mais tarde veremos que o inferno, para o nosso protagonista, não acabou aqui, mas antes se fez sentir ainda noutros momentos, se bem que com outras características, diferentemente penosas. O pior momento foi o da morte da Querida Céu, Esposa Amada, que, ao falecer nos seus braços, com sempre ela desejara, após prolongada doença, o fez mergulhar de novo no Inferno, agora mais profundo que os anteriores.
Em contrapartida, no dizer do nosso herói, em Chaves “vivia feliz na simpática, bonita, acolhedora, farta cidade fronteiriça flaviense. Vivia no céu!”.

Céu e Inferno, de que ele receava não se libertar tão cedo, após a morte da Esposa, talvez até nem o desejasse, pelo menos de início. Mas a vida ainda tinha muitas surpresas para ele. Na pessoa da antiga enfermeira de Céu, Ema, ele viria de novo a reencontrar o Amor e, claro, o Céu.
Ema, que o estimulou a compilar as memórias da sua vida, até então, a que anuiu com grande relutância, pois não se sentia capaz de tal. Mas com o auxílio de Ema, tudo se tornou mais fácil. Até o título, que só na última frase do livro ficamos a conhecer: “Memórias de Céu e Inferno”. Por outras palavras, a centralidade de Céu na vida de Silvestre é incontornável; e, fora dela, ainda que um tanto exageradamente, só parece haver Inferno.
Mas agora há Ema. E o Céu voltou de novo. Para ficar, espera-se, deseja-se!


Nota muito positiva, pois, para este “Memórias de Céu e Inferno”, de A. Passos Coelho, escrito numa linguagem acessível mas com algumas imagens apelando a forte erudição por parte dos leitores, nada que o recurso a um bom dicionário não resolva. E um enredo bem tecido, que prende da primeira à última página. Destacando sempre a enorme beleza de umas das regiões mais prendadas de Portugal, centrada no Douro, e a memória de um País dos tempos de Salazar, que convém não desconhecer, porque de memória importante se trata. Até para compreender melhor o presente e atuar adequadamente no futuro.
Estão pois de parabéns o Autor e a Editora, pela obra de que vivamente recomendamos a leitura.
Tito Ferreira de Carvalho, Economista / Professor Universitário [blogue literário Os Nossos Livros]

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[também do autor os títulos: “Gente da Minha Terra” (contos), “Histórias Selvagens” (contos), “Zélia” (romance), “Mais Gente da minha Terra” (contos)]

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Gente da minha terra


“Mais Gente da minha Terra” de A. Passos Coelho

Mais Gente da Minha Terra é um livro de contos que nos revela tradições e costumes populares de Trás-os-Montes. Inspirado em tradições populares, o autor revela todo o seu potencial recorrendo a um estilo literário sofisticado, e à verdadeira mestria, com que usa a língua portuguesa em toda sua riqueza e esplendor.


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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A. Passos Coelho escritor


“Gente da Minha Terra” (contos) e “Histórias Selvagens” (contos) de A. Passos Coelho, edição do autor

«A grande vocação de A. Passos Coelho é a de contista. Os seus contos – alguns de extensão considerável – retratam com realismo o meio rural vila-realense e a fauna humana que ali vive os seus dramas e as suas ambições. 
João Gaspar Simões disse numa recensão publicada no Diário de Notícias: “Não temos dúvidas em considerar o seu livro [Gente da minha terra] entre os melhores do género ultimamente aparecidos.” E, sobre o mesmo livro, escreveu Amândio César: “Trata-se de um volume de estreia, mas isso nada influi para a real categoria do escritor que aqui me aparece pela primeira vez”, para depois lhe apontar “um estilo forte, sadio, másculo”.
O livro Histórias selvagens serviu de argumento para um filme de António Campos.
Os livros de contos, Gente da minha terra e Histórias selvagens, saíram em primeira edição em 1960 e 1963, respectivamente. De ambos se fez uma 2.ª edição em 2002. [Grémio Literário Vila-Realense]

António Passos Coelho nasceu em Valnogueiras, Panóias, Vila Real. Médico Pneumologista, possui no seu curriculum uma vasta e notável experiência na luta contra a tuberculose. Foi diretor Clínico do Sanatório do Sameiro. Nos anos 70, do século XX, parte para Angola, onde é encarregado de organizar a luta antituberculosa no distrito do Bié até 1973, altura em que é nomeado Diretor do Sanatório de Luanda. Ainda em Angola, exerce funções de Chefe de Serviço de Combate à Tuberculose e é nomeado responsável pelo curso de Tisiologia da Faculdade de Medicina de Luanda. Após 1975 regressa a Portugal e desenvolve a sua atividade em Vila Real. Foi Coordenador Distrital do Serviço de Luta Antituberculosa (SLAT-1976), membro da Comissão Instaladora da Administração Distrital do Serviço de Saúde (1997), Presidente da Assembleia Distrital da Ordem dos Médicos (1978), Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Patologia Respiratória (1980), Presidente da Comissão Instaladora do Hospital Distrital de Vila Real e Diretor Clínico do mesmo (1991). Foi Presidente da Assembleia Municipal de Vila Real.

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