António
Alberto Alves, sociólogo de formação, abraçou em 2011 um novo projeto. A
Traga-Mundos nasceu em Vila Real e convidou os transmontanos a fazerem parte de
uma nova senda cultural.
Há dois anos que a livraria, situada no coração da cidade, abre portas às
questões culturais e procura chegar ao âmago de todos os que lá entram.
Fomos conhecer melhor duas histórias que se misturam, a do homem que a fez
nascer e a da cousa nascida.
P.- Como surgiu o conceito da Traga-Mundos?

R.- No regresso a Vila Real, após alguns anos como voluntário na Guiné-Bissau –
depois de alguns anos a trabalhar em Kiel (Alemanha), alguns anos em Messejana
(Baixo Alentejo), alguns anos em Lisboa – regressei à cidade da minha
adolescência. A ideia de abrir uma livraria era um sonho que acalentava há
muito, marcado para a idade da reforma. Deparando com uma lacuna de se dar
visibilidade aos autores e cultura transmontana e duriense na capital do
distrito, e com uma conjuntura de recessão socioeconómica no país, resolvi
avançar contracorrente com o espaço da Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e
loisas do Douro.
P.- Como olha para a evolução da ideia original até à Traga-Mundos de hoje?
R.- Em 2 anos de existência da Traga-Mundos, mudamos o verbo ao conceito
inicial – de “queremos” para “estamos”... «queremos [estamos a] construir uma
referência quando se pensa na região de Trás-os-Montes, nomeadamente do Alto
Douro Vinhateiro, seus autores e cultura, vinhos e tradições, produtos e
artesanato...».
P.- O que se passa na Traga-Mundos só se sente com uma visita?
R.- O ambiente do seu interior: o de uma loja do comércio tradicional, com
sobrado, paredes brancas e teto de madeira, inserida no centro histórico da
cidade. É também um espaço de galeria de exposições (pintura, fotografia, escultura,
cerâmica, artesanato, etc). Um espaço de diversos eventos (apresentações de
livros, tertúlias temáticas, workshops, ateliers, oficinas, etc). Cuja porta é
local de encontro e partida para um passeio pedestre pela região – ao terceiro
domingo de cada mês. Um espaço onde simplesmente se está bem – por exemplo,
confortavelmente no sofá vermelho! De notar que não somos uma loja online, de
comércio à distância: gostamos de receber as pessoas, de uma boa conversa, de
que os visitantes saiam e regressem como amigos – embora, também enviemos
produtos pelo correio para todos que nos solicitam.
P. - Quem sai da Traga-Mundos, o que traz consigo?
R.- Sobretudo, uma boa amostra da riqueza e diversidade de Trás-os-Montes e
Alto Douro. Uma vontade – dizem-nos – para regressarem e/ou recomendarem a loja
aos amigos.
P.- Costuma receber a visita de jovens?
R.- A frequência de jovens é um dos principais objectivos da Traga-Mundos como
livraria e local de cultura: a promoção da leitura e do conhecimento da região
onde se inserem. Contudo, tem sido uma missão que não se revela fácil – por
exemplo, a UTAD – Universidade de Trás-os-Montes há muito tempo que funciona de
costas voltadas para a cidade de Vila Real! Temos a crença que esta situação
poderá ser invertida, ou pelo menos atenuada, com perseverança, sensibilização,
paixão no que realizamos. Aconteceu recentemente um pormenor que nos
recompensou: a presença de uma vintena de jovens dos Cronópios e Famas – Clube
de Literatura do Colégio da Boavista a treinarem a declamação de poesia, para
uma tertúlia literária que realizaram no espaço da Traga-Mundos.
P. - Como ocorre a seleção do que faz acontecer na livraria?
R.- Temos esta imensa sorte de as pessoas virem ter connosco com uma proposta
para um evento, uma exposição, um workshop, um atelier, uma colaboração, uma
parceria. O nosso público e amigos muitas vezes questiona como conseguimos
manter um calendário de eventos – em média todas as semanas acontece algo,
sobretudo aos sábados... – e a nossa resposta é simples: porque não estamos
sozinhos, temos um conjunto de editores e produtores, escritores e artesões,
clientes e visitantes, familiares e amigos, que nos apoiam e incentivam.
Poderei dar o exemplo do espaço de galeria, que começou a funcionar
aproveitando o fundo da loja inicialmente vazio. Depois de uma ausência de
tantos anos e sem conhecer o meio artístico da cidade, como nos aventurarmos
nesta área! A verdade é que vão sempre aparecendo pessoas que nos procuram para
expor o seu trabalho e ao longo do ano de 2013 temos mantido uma programação
regular, mudando de exposição de três em três semanas, em diferentes suportes:
pintura, fotografia, escultura, cerâmica, artesanato, etc. Com uma regularidade
que em Vila Real outros espaços raramente conseguem manter! Complementarmente,
lançamos um desafio para os diferentes espaços existentes se unirem, para
partilharmos exposições e criarmos sinergias, a que se juntaram alguns artistas
e deu origem ao coletivo TragArtes – que possui potencialidades para marcar de
forma indelével a oferta artística desta cidade, nomeadamente com eventos de
rua.
P.- Qual foi o momento que mais o marcou desde que está à frente deste projeto?
R.- Como poderão adivinhar, ao longo de mais de 2 anos de porta aberta, são
inúmeros e diversos os momentos marcantes e irrepetíveis que a Traga-Mundos
albergou e fez acontecer. Poderei destacar um dos que mais me surpreendeu
positivamente: o carinho demonstrado pelos emigrantes portugueses em agosto.
Portugueses durienses e transmontanos que mais do que contentes, ficaram
orgulhosas por descobrirem em Vila Real um espaço como a Traga-Mundos; que
ficaram clientes e amigos: conheceram-nos em agosto de 2012 e voltaram em
agosto de 2013 – e certamente continuarão a regressar nos próximos anos.
P.- Olha para a Traga-Mundos como um espaço onde se reúne a cultura
transmontana e alto-duriense?
R.- Temos seguido o conceito inicial: livros – como espaço principal – e
vinhos, coisas e loisas.
LIVROS
Uma livraria especializada na temática do Douro, incluindo álbuns de edição
cuidada e guias (turísticos, vinhos, vinhos do porto, quintas, castas).
Onde estão presentes os autores locais e regionais com projeção nacional e
universal – Alexandre Parafita, A.M. Pires Cabral, Amadeu Ferreira, António
Borges Coelho, António Cabral, António Fontes, António Modesto Navarro, Bento
da Cruz, Camilo Castelo Branco, etc.
Obras em prosa ou poesia; romances, novelas e contos; livros técnicos e
revistas temáticas; álbuns infanto-juvenis e de banda-desenhada; de edições de
bolso a álbuns de fotografia; de guias turísticos a cd’s e dvd’s; de edições de
autor a edições de associações e outras instituições; em português e an
mirandés; num esforço para se reunir e apresentar num mesmo local a riqueza
cultural e literária da região de Trás-os-Montes e Alto Douro.
VINHOS
Uma loja de vinhos do Douro, desde o vinho generoso – também denominado do
Porto – ao vinho moscatel, com exemplares de aguardentes velhas. Iremos
disponibilizar edições de 10, 20, 30 e mais de 40 anos, bem como LBV e Vintage.
Proporcionamos igualmente brancos e tintos, reservas e outras delicadezas, de
produtores particulares da região – que não se encontram nos hipermercados.
COISAS
Uma loja de mercearia fina: de compotas a ervas aromáticas, de chás a licores,
de mel a frutos secos, privilegiando produtos da agricultura local, familiar e
tradicional.
LOISAS
Uma loja de artesanato, desde a olaria negra de Bisalhães a cutelaria, das
máscaras a instrumentos de manufatura tradicional, da latoaria a outros
artefactos.
Um local onde poderá igualmente encontrar informação turística, sobre eventos,
romarias, restauração, alojamento, percursos, museus, igrejas e capelas,
parques naturais.
P.- De que é feita essa cultura?
R. -De uma imensa riqueza e diversidade: desde a cultura barrosã ao planalto
mirandês, das encostas da Região Demarcada do Douro às das diferentes serras
nortenhas. De gentes e paisagens, agricultura e tradições, aldeias e
arquiteturas.
P.- Considera que os vila-realenses mostram interesse pela cultura?
R.- Comparando com o meu tempo de adolescência, em Vila Real hoje existe muito
mais oferta cultural, mais oportunidades – destacando-se o notável papel
desempenhado pelo Teatro e Biblioteca Municipais. No entanto, os clientes e
amigos da Traga-Mundos são maioritariamente de fora de Vila Real – mesmo nos
eventos, tal como acontece nos passeios pedestres, vindo pessoas do Porto,
Aveiro, Coimbra, etc. Costumo afirmar que se a Traga-Mundos estivesse por
exemplo localizada no Porto... teria certamente mais clientes vila-realenses,
do que estando localizado no centro histórico de Vila Real!
P.- Como olha para o futuro que há-de vir para a Traga-Mundos?
R.-Viemos para ficar, apesar do contexto de generalizada crise económica –
continuando sem qualquer apoio das instituições responsáveis pela cultura e
turismo nesta cidade nem da Região do Douro, nem da imprensa local e regional.
Para novembro e dezembro de 2013, e janeiro e fevereiro de 2014, para além dos
eventos já periódicos, temos alinhavado mais algumas iniciativas – que vamos
anunciando. No(s) próximo(s) ano(s) iremos continuar.
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