“Guerra em Rima” de
Dias Vieira
O Coronel Dias
Vieira sempre teve um fraquinho pelo jornalismo e pela investigação. Mesmo
quando estava no activo, ao serviço da GNR. Agora que se encontra na pausa
profissional que é bem merecida quando se cumpre como ele cumpriu e goza de
saúde para ocupar o tempo livre, tem vindo a pesquisar na imprensa regional
temas que na altura terão passado despercebidos mas que à distância de décadas,
constituem curiosidade cultural, social e histórica.

O semanário a Voz de Trás-os-Montes que iniciou a sua publicação em 9
de Novembro de 1947, como propriedade das Conferências de S. Vicente de Paulo e
que teve apenas dois directores: o Pe Dr. Henrique Maria dos Santos, até à
altura em que deixou Vila Real e o Pe Dr. António Maria Cardoso, que completou
90 anos de vida em Março passado e que ainda continua ao leme deste órgão de
informação que tem uma organização profissionalizada, que dá garantias de
chegar longe.
Aproveitando para felicitar o Dr. António Maria Cardoso e todos os seus
colaboradores, entro no tema que aqui me traz.
Dias Vieira ao compulsar a sua colecção de 1948, deparou com uma saudável
«guerra», iniciada pelo saudoso Padre José Bernardo Gonçalves, nascido em
Paradela do Monte (Stª Marta), em 1924 e falecido em 25 de Junho de 2000.
Na edição de 11 de Junho de 1948 publicou nesse periódico um soneto que
intitulou: «Água o deu...».
Na edição do mesmo jornal de 1 de Agosto seguinte, o também poeta Barrosão,
Artur Maria Afonso (Pai do célebre Pintor Nadir Afonso), escreveu um soneto que
dedicou ao Padre Bernardo e que tinha por título: «Tinha de arder... e
ardeu».
O Pe Bernardo, satisfeito com a dedicatória, ripostou com novo soneto desta vez
intitulado: «Quem nasce para cinco... a dez não vai», numa espécie de
incapacidade em relação a quem tanto o honrou com a primeira dedicatória.

Só que Artur Maria Afonso não aceitou que Bernardo se inferiorizasse e, em
réplica ao elogio, dedicou-lhe, também um segundo soneto, onde, nos 3º e 4º
versos da segunda quadra, lhe confessa, em «Agradecimento»: O verso que
traçais é tão perfeito/ que não há quem vos possa exceder.
Nesse meio tempo intrometeu-se no elogio mútuo, entre Bernardo e Maria Afonso,
um desconhecido A. M. de Mairos - Chaves. Este A. M. questionou-se, também em
soneto «a dois poetas» terminando a chave desse soneto: Gemeu: - Mas que
humildade a destes lírios!...
A. M? Chama-se, ainda hoje, o Mons. Ângelo Minhava que nessa altura pregava em
Mairos, no concelho de Chaves. Entendeu quebrar o diálogo daqueles dois
«requebros amorosos». E, ignorando os dois contendores, a identidade do intruso
que tratava por D. Quixote (lírio branco) e Tirteu (lírio roxo). A brincadeira
enquanto foi a dois, decorreu bem. Mas quando aparece o terceiro, as coisas
azedaram, sendo preciso que o então bispo da diocese (D. António Valente
da Fonseca) aconselhasse a um «armistício» para acabarem com a «guerra
rimada». Ângelo Minhava dá-se a conhecer e passaram a ser
três «amiguinhos, mansinhos e calados».
Artur Maria Afonso regozija-se disso no soneto «Os três no Limoeiro». Mas
aparece um quarto sonetista revestido de Raimundo Vieira que no poema «À
deriva», acusa o trio de«néscios pretensos poetas».
Um quinto poeta denominado Rogério Sampaio, reforça a contenda, mas vira-se,
sobretudo, contra Raimundo Vieira que «não gostou de tais reparos,
recomendando-lhe mais modéstia e tentando demonstrar que «os bons poetas não
são assim tão raros...»

Por fim, mais um pseudónimo na contenda: Amílcar que pede paz: «haja paz,
Senhor Rogério! /que achou quente de mais, hein? O cautério /Daquela
«Raimundínica Varrina»?
Até aqui foi uma comédia em dois actos. Primeiros três poetas, cada qual o mais
distinto e o mais modesto: Bernardo Gonçalves, Artur Maria Afonso e Ângelo
Minhava. Depois o interregno com o «armistício», do Bispo.
O segundo acto recomeça com os mesmos três, desta vez fardados com pseudónimos:
Raimundo Vieira reabre em nome de Artur Maria Afonso; Rogério
Sampaio representando Bernardo Gonçalves e Amílcar em nome de
Ângelo Minhava. Houve uma terceira ronda e nela se intromete Domingos Barroso,
outro clérigo de Sanguinhedo, ao tempo, pároco de Vilar de Perdizes.
É grato reler estes saudáveis interlúdios culturais entre pessoas que
conhecemos, nos ensinaram muita coisa do pouco que sabemos e que revelam a
forma como se entretinham nos tempos mortos.
Dias Vieira surpreendeu-nos com esta recolha num opúsculo que vale mais do que
grossos volumes de cuja leitura nada de útil se recolhe. Foi pena que o autor
apenas fizesse uma tiragem de 150 exemplares... [Barroso da Fonte, NetBila]
Disponível na Traga-Mundos
– livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real...