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segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Histórias de Lana-Caprina


“Histórias de Lana-Caprina” de Bento da Cruz

Colectânea de histórias alegres e bem-humoradas, «para não andarmos para aqui todos com cara de enterro». Começa por reproduzir as muitas situações picarescas ligadas à banda de música de Parafita, uma pequena aldeia reclinada numa encosta fronteiriça à Serra das Alturas do Barroso. A banda dá aos naturais da terra aquele ar de artistas, que leva o povo a afirmar: Vale mais um ano em Parafita do que cinco anos em Coimbra. Inclui muitos outros motivos de riso e boa disposição, como é o caso do conto sobre o padre Justino e a burra, dentre outros, todos eles tratados num discurso narrativo arejado, no qual alimenta conscientemente a memória como matéria perecível, que é preciso fixar na cultura e no espírito da comunidade. Edifica assim uma das mais belas peças das obras picarescas da língua portuguesa, fazendo renascer uma original riqueza imaterial a caminho do ocaso, um legado para a auto-estima de hoje e dádiva para as gerações vindouras.

«O padre Moura, mais conhecido por padre Mula, formigão em plena maturidade, infatigável batedor de perdizes e lebres, barba de oito dias, grenha preta com filamentos brancos nas fontes e raleiras marginais à tonsura, uma verruga de sete cotovelos na ponta do nariz abatatado, faces e barbadelas lustrosas de sangue bem nutrido, voz tonitroante, que adquiria tons confidenciais quando, entre copos e amigos, se vangloriava de ter vindo para ali com a barriga a dar horas e as calças a pedir fundilhos e, agora, estar rico e farto como um porco.
- Isto é que este Mula é um usurário… Traz dinheiro emprestado aos pobres a vinte e a trinta por cento ao ano…
… Isso, por dinheiro, é capaz de vender a alma ao príncipe das trevas. Pelas leis da Igreja, os padres só podem rezar uma missa por dia. Pois o Mula, se lhas pagarem, aceita vinte e trinta por intenção de para o mesmo dia.
… E as baboseiras que essa besta diz do altar para abaixo? Para ele, o inferno ainda funciona a lenha… - E a respeito de mulheres? Catequistas, filhas de Maria, zeladoras, solteiras, casadas, viúvas, virgens, prenhas, velhas, novas, tudo lhe serve…
- Um frascário.
- Um garanhão
- Um sacripanta…
- Um filho da puta…»

Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real... | Traga-Mundos – lhibros i binos, cousas i lhoisas de l Douro an Bila Rial...
[também do autor disponível os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “O Lobo Guerrilheiro”, “A Fárria”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, ”, “Prolegómenos III”, “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares” e “República e Incursões Monárquicas – Um Padre Guerrilheiro de Barroso” com António Chaves, Barroso da Fonte, José Baptista]

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Barroso por Bento da Cruz


“O Lobo Guerrilheiro” de Bento da Cruz

Prémio Literário Diário de Notícias 1991, atribuído pelo júri constituído por Agustina Bessa-Luís, Diogo Peres Aurélio, Lídia Jorge, Vergílio Ferreira e Viale Moutinho

...André Lobo nasceu no coração de Barroso, aurícula de Gostofrio, sangue de lavradores. Teve uma infância de mimos, entre o amor da mãe Isabel e a companhia da irmã Balbina, mais velha do que ele oito anos.
Não chegou a conhecer o pai, a quem a morte colheu ainda verde lá para as Américas, onde o brilho traiçoeiro do dólar o atraíra. Do tempo dele, foi o único rapaz de Gostofrio a frequentar a escola régia da Gralheira até à quarta classe. A professora, uma boneca citadina a quem o padre Elias fez um filho e a vida negra, lamentava que ele não seguisse estudos, onde prometia ir longe. O tio Lisboa, que tinha a paixão da guitarra e do fado e dirigia, na aldeia, uma pequena orquestra de cordas, quis fazer dele um fadista de fama e proveito; e o tio Carneiro que, aos domingos, ensinava os rapazes a jogar pau, um varredor de feiras e romarias. Mais terra a terra, a mãe Isabel entregou-lhe o governo da casa, que mantinha sete vacas e malhava quatrocentos alqueires de pão. Por amor das vacas e do pão, adicionado à galharda figura do rapaz, todas as raparigas da freguesia sonhavam com ele para marido.

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[também do autor disponível os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “A Fárria”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, ”, “Prolegómenos III”, “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares” e “República e Incursões Monárquicas – Um Padre Guerrilheiro de Barroso” com António Chaves, Barroso da Fonte, José Baptista]


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Contos do Barroso

“Contos de Gostofrio” de Bento da Cruz

Prémio Fialho de Almeida da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos


«Há aqui [em Contos de Gostofrio] uma incontestável denúncia da miséria, de todas as misérias, de uma das mais frustes regiões do nosso país subdesenvolvido […] mas esse testemunho é envolvido pela mesma nostalgia doirada, pela mesma comunhão com tudo e com todos, de As Pastagens do Céu de um Steinbeck. E isso, longe de se me figurar demérito, aparece-me como virtude de homem e de escritor. Eis como um livro tão voluntariamente localizado, fruto e expressão da experiência tão aderente de simpatia, que permitiu a Bento da Cruz erguer a sua galeria de homens e bichos e, às vezes, de homens-bichos, assim alcança a sua ampla universalidade.» Urbano Tavares Rodrigues, Do Prefácio

Após uma ausência de largos anos, eu regressava à minha terra sem nada para oferecer ao espanto dos patrícios: nem carro espampanante, nem malas cravejadas de amarelo, nem aves exóticas, nem sotaque estrangeiro, nem sequer mais gordo. Além disso, o meu feitio misantropo tinha piorado com os invernos e não me permitia grandes relatos sobre as terras por onde andara nem sobre as gentes que vira. Perdera também a faculdade de abrir a boca perante a beleza dos filhos, a gordura das vacas e o aumento da fazenda dos meus companheiros de infância. De modo que estes, desiludidos, concluíram que eu regressava pobre ou doente, e, a pouco e pouco, foram-me voltando as costas. Entretanto eu reconhecia que fora engodado pela saudade do paraíso perdido e que viera ao encontro duma ilusão. A casa de meus avós desfizera-se, os meus parceiros de aventuras tinham envelhecido e até a paisagem era outra: beirais de telha, luz elétrica, rodovia alcatroada, a floresta e a barragem. Portanto só me restava um caminho: arranjar as coisas e partir de novo. Antes, porém, teria de honrar a memória de meus pais, colocando-lhes uma cruz na sepultura. Com esta ideia, dirigi-me a Fontefria para pedir licença à junta da paróquia e conselho ao abade. [de “O Vilaguicha”]

“Contos de Gostofrio” é uma das mais populares obras do autor, mas surge agora com uma nova edição e revisão. 

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[também do autor os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “A Fárria”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, ”, “Prolegómenos III”, “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares” e “República e Incursões Monárquicas – Um Padre Guerrilheiro de Barroso” com António Chaves, Barroso da Fonte, José Baptista]

quinta-feira, 14 de março de 2013

Barroso em prolegómenos III


“Prolegómenos – Crónicas de Barroso, III Volume” de Bento da Cruz

Este terceiro volume, reúne mais crónicas do autor, breves apontamentos que nos mostram Barroso, do tempo, dos bichos, das árvores, das flores e das histórias de sua gente.

«Questões de toponímia, questões de fauna e de flora, questões de energia, questões do tempo e do clima, questões de fé, histórias de gentes, casos de vida – tudo na linguagem da insídea, da corrosão, da teimosia, do sarcasmo, da ironia, da provocação das consciências e das vontades. Tudo recados com destino, tudo picadas e tacadas, tudo na conta, no peso e na medida. O escritor regressa onde sempre esteva, ao coração da terra, da serra, do campo, da casa, da sua rua, do seu céu, da sua língua. E regressa munido de tudo quanto aprendeu a recusar... Bento da Cruz n sua simplicidade refinada!» José Machado

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[também do autor os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, “A Fárria”, “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares” e “República e Incursões Monárquicas – Um Padre Guerrilheiro de Barroso” com António Chaves, Barroso da Fonte, José Baptista]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A lenda de Hiran e Belkiss


“A Lenda de Hiran e Belkiss” de Bento da Cruz

Da história bíblica renascem os dois enredos que dão corpo a este trabalho. Sobressaindo pelo refinado humor com que envolve as personagens e as situações plenas de deliciosos pormenores de fantasia, “A Lenda de Hiran e Belkiss” principia por contar, de forma assaz original, a história de um Rei David algo sui generis, onde se realça o insólito e humanizam espirituosamente as acções e reacções do monarca bíblico e dos restantes personagens. Após este prelúdio, que é na verdade uma história dentro da história, surge então a lenda do amor entre Belkiss, rainha de Sába, e Hiran, mestre arquitecto. Decorrida no reinado de Salomão, esta tragicomédia arrebata-nos para um mundo onde testemunhamos o desenrolar de um amor intenso e puro no seio de uma sociedade hipócrita e egoísta.
Matizado com uma sensibilidade muito actual, satirizam-se neste exercício de imaginação acontecimentos e histórias geralmente encarados com seriedade, querendo talvez relembrar-nos da inconstância da vida e da presença inabalável do humor, até nos momentos mais difíceis e inesperados.

Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real...
[também do autor os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, “A Fárria”, “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares” e “República e Incursões Monárquicas – Um Padre Guerrilheiro de Barroso” com António Chaves, Barroso da Fonte, José Baptista]

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Um padre guerrilheiro


“República e Incursões Monárquicas – Um Padre Guerrilheiro de Barroso” de António Chaves, Barroso da Fonte, Bento da Cruz, José Baptista

«A primeira incursão monárquica teve lugar de 4 para 5 de Outubro de 1911 na raia galega de Vinhais, exatamente um ano após a revolução que conduziu à vitória do 5 de Outubro de 1910, dando início a um regime republicano em Portugal.
Completou-se, no decorrer do mês de Julho, um século sobre a segunda incursão monárquica e, em Agosto, século e meio sobre a data de nascimento do Padre Domingos Pereira, um dos mais destacados e astutos guerrilheiros da contra-revolução monárquica. O aniversariante, apesar de ter vivido boa parte da vida adulta em Cabeceiras de Basto e aí ter sediado o seu baluarte de resistência, é natural do concelho de Montalegre, mais propriamente da aldeia de Vilarinho, freguesia de Negrões, onde nasceu a 9 de Agosto de 1862».

António Chaves (Autor e coordenador do livro): «tentei dar uma perspetiva daquilo que se passou a nível internacional, nacional e local. Considero de fundamental importância entender-se aquilo que se passa à nossa volta. Tentar dirimir as questões que se encontram no nosso dia a dia, nas nossas instituições, nas nossas relações, sabendo que elas não estão totalmente desligadas de contextos mais alargados. Nós fomos líderes e pioneiros mas esse é um tempo que já lá vai muito longe. Encaixar as peças neste contexto é, por vezes, um exercício difícil mas é fundamental para conhecermos a nossa história dos nossos locais de modo a entendermos como foi o nosso passado».

Barroso da Fonte (Autor): «a mim foi-me dado um tema sobre o padre Domingos Pereira falando dos últimos 25 anos da vida dele. Foi interessante falar desta figura. É um padre barrosão. Havia mais um irmão na família. Os dois foram parar a Cabeceiras de Basto onde estava um tio, João Carreira, que teve influência junto do bispo de Braga para o levar para lá. Travaram lá algumas batalhas, esta foi uma batalha travada por eles. Ele acabou por não renegar à religião porque quando morreu foi vestido com as vestes de sacerdote. Dava conselhos aos padres que não fizessem o que ele fez. Para mal já bastava o que ele fez. Enquanto foi padre cumpriu. Não há noticias que ele se tenha portado mal a não ser que tenha seis filhos da empregada Valentina. Os filhos foram criados, ao que parece, com boa educação. Depois de abdicar de sacerdote, foi um combatente, um guerrilheiro...na parte que me toca não analisei o combatente mas a integridade e a coerência do homem que foi. Em relação à Câmara, não lhe ficou nada mal homenagear um cidadão, fez muito bem».

Bento da Cruz (Autor): «escrevi sobre a incursão do Paiva Couceiro em relação ao que se passou aqui na fronteira. A história de Portugal é feita pelos autores nacionais. A história local tem que ser feita por nós. Isto faz parte da história local. Toda a descrição que faço, que não tem pretensões históricas, é uma festa! Lembro, por exemplo, do pormenor do Joaquim Leitão, não sei se mente ou não, de os homens aparecerem em Gralhas com lenços à cabeça, de cor vermelha. Eram lenços como turbantes. Eu ainda me lembro disso. Um uso que agora desapareceu por completo».

José Dias Baptista (Autor): «a minha prestação é a parte histórica da vida do padre Domingos Pereira. Toda a história nacional ligada à história de Barroso através da figura do padre. Trata-se de fazer uma resenha dos momentos históricos nacionais mais importantes, como faço em todos os meus livros, ligando-os a factos históricos passados na nossa região».
[webpage da Câmara Municipal de Montalegre]

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[também os títulos de Bento da Cruz: “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “A Lenda de Hiran e Belkiss”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, “A Fárria”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes” e “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares”]

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Guerrilheiros antifranquistas em Trás-os-Montes


“Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes” de Bento da Cruz

De 1936 a 1946, as pacatas aldeias transmontanas mais chegadas à raia foram invadidas por espanhóis. Não em pé de guerra, bem entendido. Mas metaforicamente invadidas. Primeiro, pelos refugiados. Depois pelos guerrilheiros. Uns e outros deram azo a acontecimentos que, à força de passarem de boca em boca, se tornaram lendários. Isso mesmo. O Juan, é um mito. O Garcia, para lá caminha. O Pinto, um anti-herói. O Pereira, o bode expiatório. O Nacho, o vilão da fita. O cerco da Guarda Nacional Republicana ao Cambedo, a batalha. Os que passaram pela PIDE, pela cadeia, pelo Tribunal Militar e pelo Plenário, os mártires. Foi criada, ultimamente, em Espanha, a Asociación para a Recuperación da Memoria Histórica que se tem dedicado a exumar valas comuns de patriotas assassinados pelo franquismo. Este livro é isso mesmo. Uma comovida e apaixonada exumação histórica.

«Ecos da guerra civil espanhola na raia transmontana

A guerra civil espanhola terminou em 1939, mas a resistência armada à ditadura vitoriosa prolongou-se por dezenas de anos. A última morte violenta de um guerrilheiro antifranquista – Ramon Varela – ocorreu em 1967 na Galiza, o que mostra bem a duradoura resistência desses homens e mulheres escondidos nas serras e aldeias isoladas.
Não foram poucos. Provam-no as cinco mil a seis mil prisões registadas, bem como a detenção de cerca de 20 mil dos seus familiares ou apoiantes. Mas é escassa a informação sobre esta componente do conflito espanhol – hoje em dia tema de abundante produção editorial. Estes homens, que nem tinham direito a ser enterrados em cemitérios – ainda há poucos anos seis deles foram exumados do alcatrão das ruas da aldeia de Canedo, província de Léon –, participaram numa saga tenebrosa que (afirma Secundino Serrano em "Maquis, História da Guerrilha Antifranquista", a que aqui se recorre) "continua proscrita na historiografia académica sobre a ditadura franquista".
Durante muitos anos a sua memória foi conservado pelos aldeões que transmitiram a outros a passagem dessa gente pelas suas vidas.
É, em boa parte, desse tipo de lembranças que vive o livro "Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes" de Bento da Cruz, de Bento da Cruz, que colige episódios da pouco conhecida "invasão" dos aguerridos sobreviventes da guerra civil espanhola pela terra natal do autor.
A raia de Trás-os-Montes começou a ver chegar espanhóis pouco depois do levantamento fascista, em 1936. "Em quase todas as aldeias do Barroso havia espanhóis", recorda o autor. "Vieram de certo modo preencher as vagas dos criados de servir" e em breve "passaram a ser preferidos e tratados como pessoas de família" pelos lavradores que os usavam. "Este estado de graça durou até ao Verão de 1938", refere Bento da Cruz, quando um GNR de Boticas mata um desses fugitivos e é, meses depois, abatido por esse crime. Depois dos refugiados, tinham chegado os guerrilheiros. Entre a repressão e uma fuga quase impossível de uma Galiza desde o início nas mãos dos franquistas, haviam escolhido as montanhas. De um lado e de outro da fronteira, os "fuxidos" dão os seus "golpes económicos", ou "atracos" – que por vezes acabam com mortos – e voltam a dispersar por aldeias como Nantes, Curral das Vacas, Sernande, Cambedo, Alturas de Barroso ou Paradela.
Fugas, assaltos e roubos, confrontos com a tropa e a GNR, valentias e traições são aqui registadas, de par com algumas figuras mais notórias dessas aventuras desesperadas, de guerrilheiros como Marcelino Villanueva, "O Gafas", mineiro, Manuel Girón Bazán, lavrador, ou Manuel Alvarez Árias, "El Bailarin", carteiro. Imagens de vários desses homens e mulheres, bem como um mapa do percurso de uma incursão guerrilheira, são também inseridos nestes relatos de um período violento e obscuro de uma pequena parte da Península Ibérica.
Livro negro, onde não faltam minuciosos registos de crimes e torturas, "Guerrilheiros Antifranquistas", da Âncora Editora, dá – mesmo quando, aqui e ali, se desenrola em saltos ou com um encadeamento difícil – um retrato duro dessa época terrível na região do Barroso, a cujos filhos é sobretudo dedicado.» [blogue Bragança Antifascista]

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[também os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “A Lenda de Hiran e Belkiss”, “Prolegómenos I”, “Prolegómenos II”, “A Fárria” e “Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Outros Lugares”]

terça-feira, 12 de junho de 2012

Camilo Castelo Branco e o Barroso


“Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso e Ouros Lugares” de Bento da Cruz
disponível desde já na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real
 «Foi apresentado no dia 2 de Junho, em Montalegre, durante o 2º Encontro com Jornalistas e Escritores do Alto Tâmega, Barroso e Galiza,organizado pelo Fórum Galaico-Transmontano, o último trabalho de Bento da Cruz: Camilo Castelo Branco por terras de Barroso e outros lugares, integrado na colecção Obras de Bento da Cruz, da Âncora Editora, e acabado de sair.
Apresentou A. M. Pires Cabral. O livro, que comemora os 50 anos de vida literária do Autor, está dividido em três partes. Na primeira, é feito um levantamento muito rigoroso e completo das referências a Barroso (terra e gente), na obra de Camilo. A segunda parte é uma síntese biográfica do grande romancista do Amor de perdição. Finalmente, a terceira parte é uma antologia de magistrais textos de Camilo.
Com esta obra de grande maturidade crítica, fica ainda mais rica a bibliografia passiva de Camilo Castelo Branco.
O livro será também apresentado em Bragança, durante a Feira do Livro, no próximo dia 9 de Junho.» [Notícias do Douro]

ver ainda [http://diarioatual.com/?p=59675]

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A fárria de volfrâmio


“A Fárria” de Bento da Cruz

«Bento da Cruz, o grande e justamente consagrado escritor barrosão, sinalizou os 50 anos de vida literária com a publicação do romance A Fárria, publicado pela Âncora Editora. Na linha dos seus romances anteriores, o cenário desta obra é o Barroso, mais propriamente as Minas da Borralha, onde, durante a II Guerra Mundial e também alguns anos depois, teve lugar uma intensa actividade ligada à exploração, mineração, comercialização e contrabando de volfrâmio. A esta actividade fervilhante e também ao ambiente de traficância, euforia e novo-riquismo proporcionado pelo lucro fácil, deu-se o nome de fárria.
O romance desenvolve-se segundo duas linhas que amiúde convergem: a história pessoal de Silvério Silvestre e a história das Minas da Borralha.
É mais um grande romance que Bento da Cruz nos oferece, ao mesmo tempo que avisa que será o fecho da sua obra literária. Oxalá o Escritor não cumpra esse voto.» [Grémio Literário Vila-Realense]

«Quanto à obra, em declarações à Rádio Montalegre, Bento da Cruz disse que o livro “A Fárria” é “uma história romanesca à volta de amores e, ao mesmo tempo, dá uma ideia do que eram as Minas da Borralha, a única indústria do Barroso, que trabalhou quase cem anos”. “Mostrar como se vivia, se trabalhava e se morria na Borralha. É isso que eu pretendo. Não procuro fazer história”, precisou o autor. Questionado sobre o facto de o Barroso continuar a ser sua fonte de inspiração, Bento da Cruz lembrou que este foi sempre o seu “tema” e a sua “matéria-prima”. “Cada um fala do que sabe. Eu só conheço uma coisa neste mundo, que é o Barroso. Não sou viajado. Nunca vivi noutro lado, a não ser no Porto, mas nunca me desliguei do Barroso”, explicou o escritor. 

«O Barroso não me deve nada. Eu a que devo tudo ao Barroso», acrescentou Bento da Cruz.
[Margarida Luzio, Semanário Transmontano]
 Disponível na Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro em Vila Real...
[também os títulos “Contos de Gostofrio”, “Histórias da Vermelhinha”, “O Retábulo das Virgens Loucas”, “Histórias de Lana-Caprina”, “A Lenda de Hiran e Belkiss”, “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”, “Prolegómenos I” e “Prolegómenos II”]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Barroso em Bento da Cruz

“O Retábulo das Virgens Loucas” de Bento da Cruz
É uma obra mágica por excelência, como diz Urbano Tavares Rodrigues, onde tudo se agita - seres humanos e vegetais, bichos, água dos açudes - na louca dança da vida. É o retábulo da essência humana e sabedoria dos mais humildes. É a história de Picholeta, história de amor e de sobrevivência, da fé que a leva a oferecer as argolas de ouro à Senhora do Pranto. Quando um dia as quis reaver, já tinham desaparecido...

«Bento Gonçalves da Cruz nasceu a 22 de Fevereiro de 1925 na aldeia de Peireses, freguesia de S. Vicente da Chã, concelho de Montalegre, filho de pequenos proprietários rurais, Manuel Gonçalves da Cruz (conhecido por Manuel Marinheiro) e Maria Alves, que tiveram ainda outros sete filhos.
A 16 de Outubro de 1940, concluídos os primeiros estudos, ingressou na Escola Claustral de Singeverga, dirigida por monges beneditinos, disposto a seguir a vida religiosa. Aí concluiu com distinção o antigo Curso dos Seminários e foi director literário das revistas estudantis O Colégio e Claustrália.
Entrou no noviciado em 1945. Porém, terminado este, decidiu abandonar a ordem em 1946, curiosamente também no dia 16 de Outubro. Dois anos depois matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Concluída a formatura, abriu consultório de clínica geral em Souselas, no concelho de Coimbra, em 1955.
Pouco depois, em 1956, estabeleceu-se no Barroso, praticando clínica geral e estomatologia, até que em 1971 se fixa no Porto, onde ainda se mantém.
Tendo-se embora estreado com um livro de poesia (Hemoptise, de 1959, sob o pseudónimo de Sabiel Truta), Bento da Cruz depressa passa a dedicar-se a outros géneros literários, com especial realce para a ficção (conto, novela e romance). É certamente o mais prolífico romancista trasmontano de temática rural, tendo publicado os seguintes romances: Planalto em chamas, 1963; Ao longo da fronteira, 1964; Filhas de Loth, 1967; Planalto de Gostofrio, 1973; O lobo guerrilheiro, 1991; O retábulo das virgens loucas, 1996; e A loba, 1999. Publicou também uma novela, A lenda de Hiran e Belkiss, de 2005, que de algum modo se encontra desenquadrada do resto da sua obra de ficção, uma vez que se trata de uma narrativa de tema e sabor bíblicos.
Quanto à modalidade do conto, também debruçado sobre a ruralidade, publicou até ao momento os títulos Contos de Gostofrio e Lamalonga, 1973, e Histórias de lana- ‑caprina, 1998. Publicou ainda um volume de historietas da tradição oral, Histórias da Vermelhinha, de 1991, a que, em vez de contos, prefere chamar “memória oral”.
Fora do âmbito da ficção, embora por vezes se aproxime dela, publicou ainda uma biografia, Victor Branco, escritor barrosão – Vida e obra, de 1995, e um estudo de história, Guerrilheiros antifranquistas em Trás-os-Montes, de 2003.
Bento da Cruz é autor de uma obra vasta, quase integralmente dedicada a temas e personagens da sua região natal, o Barroso (a excepção é o já citado A lenda de Hiran e Belkiss). É curioso notar que a palavra “planalto” entra em dois dos seus títulos. Um topónimo barrosão, Lamalonga, aparece uma vez. Gostofrio, que surge em dois títulos, parece decalcado sobre Bustofrio, topónimo do concelho de Boticas. Tudo isto é sinal de apego ao Barroso. De facto, poucos autores têm produzido uma obra tão coerente e consistentemente amarrada à realidade rústica que envolveu a sua infância e a que o escritor continua a sentir-se preso e a visitar regularmente. Numa entrevista recente, Bento da Cruz diz: “Vou indicar-lhe as ‘extremas’ da leira da minha ficção. É um planalto, ou meseta, assente em quatro serras principais e respectivos contrafortes: Larouco a norte, Alturas a nascente, Cabreira a sul e Gerês ao sol-posto.”
Na sua ficção, filiada (embora sem subserviência, antes plenamente emancipada) num certo neo-realismo de matriz rural, Bento da Cruz valoriza elementos, linguísticos e outros, de uma etnografia riquíssima, sem nunca cair nas tentações do folclórico. De notar na sua obra a recorrência dos temas das pulsões instintivas e da sensualidade feminina.» [Grémio Literário Vila-Realense]

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domingo, 27 de novembro de 2011

Contos da tradição oral barrosã

“Histórias da Vermelhinha” de Bento da Cruz
Narrativas levantadas do chão do tempo dos nossos avós, quando vestiam de linho no Verão e de burel no Inverno e eram o esteio do ensino dos mais novos, celebrado em três locais de convívio, hoje em desuso: o monte, o forno e o serão. Nessa universidade extra muros extramuros havia admiráveis contadores de histórias e as crianças pediam: «Ó tio Zé, conte lá outra vez a história dos dois corcundas». Era assim que ocupavam os tempos livres e os longos serões de Inverno, à volta da lareira. Era assim que transmitiam a cultura de geração em geração. Para além das histórias de raposas, tourões ou lobos, havia outras mais picantes, eróticas, ou de crítica social, contadas em reservado, que envolviam padres, galegos, doutores, santos, burros, ladrões, cornos e rameiras. São contos «proibidos» da tradição oral de Barroso que Bento da Cruz escutou de contadores da craveira de João do Gervaz de Vila da Ponte ou de Manuel da Inácia de Negrões, agora reproduzidos de memória e por conta própria...